on 21 de novembro de 2013

Conceição Lima concluiu esta noite a análise à obra do poeta Mário de Sá Carneiro. O lisboeta modernista e influente escritor da "geração d´Orpheu" teve destaque em duas emissões na Rádio Vizela, confira a 1ª hora (aqui) e a desta noite:




Uma vez que a vida que trazia não lhe agradava, e aquela que idealizava tardava em se concretizar, Sá-Carneiro entrou numa cada vez maior angústia, que viria a conduzi-lo ao seu suicídio prematuro, perpetrado no Hôtel de Nice, no bairro de Montmartre em Paris, com o recurso a cinco frascos de arseniato de estricnina. Embora tivesse adiado por alguns dias o dramático desfecho da sua vida, numa «cart de despedida» para Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro revela as suas razões para se suicidar:

Meu querido Amigo.
A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o seu Mário deSá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo. É assim tal equal – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo ridículo que sempre encontrei nas «cartasde despedida»... Não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero:o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui... Já dera o que tinhaa dar. Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias –ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, ameus olhos, não há outra saída. Antes assim. É a única maneira de fazer o que devo fazer. Vivohá quinze dias uma vida como sempre sonhei: tive tudo durante eles: realizada a partesexual, enfim, da minha obra – vivido o histerismo do seu ópio, as luas zebradas, osmosqueiros roxos da sua Ilusão. Podia ser feliz mais tempo, tudo me corre, psicologicamente,às mil maravilhas, mas não tenho dinheiro. [...]

Mário de Sá-Carneiro, carta para Fernando Pessoa, 31 de Março de 1916.