on 3 de abril de 2016

Hoje recupero uma história, uma cultura, um marco e porventura algumas lendas por detrás da malograda capela de Nossa Senhora de Lourdes em S. João Vizela. Se o nome ou até a capela lhe são estranhos, não fique admirado porque já lá vão 19 anos. Vizela nem era concelho na altura da extinção do culto e da capela localizada nos terrenos próximos do "Ciclo", da Escola Básica de Caldas de Vizela.
Depois de um período de quaresma e de conversas sobre religião, peditórios, significados de procissões e requalificações do património religioso, acabei por focar a atenção numa capela que teve um final destrutivo, que gerou alguma controvérsia e que é recordada ainda hoje por algumas pessoas com algum saudosismo. 
Numa primeira pesquisa pela internet encontramos apenas uma referência no Digital de Vizela no dia 8 de Dezembro

"1919 - A família Melo do Mourisco coloca à disposição um terreno para construção duma capela dedicada a Nossa Senhora de Lurdes em S. João das Caldas em rogo pela protecção da epidemia do tifo. Os paroquianos de S. João colaboram com um peditório pobrezinho. A capela chega a receber algumas cerimónias públicas como baptizados e casamentos. É derrubada em 1997 (7 de Maio) depois de restaurada pela Junta de S. João."


A partir daqui tinha os ingredientes para explorar a história que escapa ao universo online e que acaba por fugir ao conhecimento público da origem dos locais, das ruas e dos antepassados. A reportagem naturalmente não ficará completa quando em conversa com muitos vizelenses, acabamos por ouvir falar em batizados, em casamentos, em namoros e muitas brincadeiras, romarias e promessas de fé na extinta capela de Nossa Senhora de Lourdes. Por isso o convite fica aqui escrito para comentarem ou enviarem um email (planoclaro.informacao@gmail.com) com testemunhos ou fotos desses momentos na capela em S. João.

Em buscas no também extinto jornal o Notícias de Vizela, encontramos artigos que ajudam em muito a perceber a origem e o final desta capela. Hoje em dia o terreno encontra-se ermo, sem construção e o proprietário até poderá ter interesse em vender.
No Jornal Notícias de Vizela encontramos os seguintes relatos:


Ainda as Capelas
Por Dra. Maria José Pacheco

"Caiadas de branco, levantadas no cimo dos montes ou alcandoradas sobre rochas, junto ao mar, ou colocadas simplesmente à beira de caminhos, as capelinhas, ainda que humildes, emprestam sempre uma nota de poesia e encanto à paisagem, além de lembrarem os valores espirituais que presidiram à sua edificação.
Muitas delas tornaram-se afamadas pelas suas festas e romarias, que se estendiam a um círculo de muitos quilómetros de raio, abrangendo mesmo vários concelhos, e sendo fonte de inspiração de alguns dos nossos melhores poetas medievais.
Até a história semântica do vocábulo "capela" tem a sua magia. Com origem no substantivo latino "cappela", de "capa", mais o sufixo diminutivo "ella", que também entra na formação da palavra Vizela (de Avicella), evoca um gesto generoso de S. Martinho de Tours, em França, que num frio dia de Outono do ano de 338, rasgou a sua capa, para oferecer metade a um pobre homem, que viu na berma da estrada, a tiritar de frio.
conta a lenda da natureza, comovida com a boa acção de solidariedade de S. Martinho, decidiu perpetuá-la com oito dias amenos de sol, em pleno Outuno, que ficariam conhecidos pela designação de "verão de S. Martinho".
Falecido em 397, precisamente há 1600 anos, logo de tornou um grande taumartugo, conhecido pelo Apóstolo das Gálias e, por volta do século VII, a capinha do Santo, "capella", pois tratava-se apenas de metade, foi colocada num relicário real concebido expressamente para esse fim.
Pouco a pouco, começou a estabelecer-se uma certa confusão, passando a dar-se ao oratório o nome relíquia, e nos palácios reais e nas casas dos grandes senhores, generalizou-se a existência de um recanto religioso especial, a "capella". A partir do século XIII. a designação de capela já se dava a um pequeno recinto consagrado ao culto religioso e onde havia um altar.
As capelas, como as igrejas, sempre constituíram um património valioso e um valor a preservar, e como tal surgem inventariadas nos livros antigos. Porém, apesar da grande religiosidade do povo do Minho, não são muitas as ermidas do Vale do Vizela.
Há, no entanto, capelas bem cuidadas, onde se pode fazer uma prece ou colocar um flor, com festividades assinaladas e vividas por toda a comunidade, a par de outras, que jazem, imerecidamente, num desolador abandono e degradação.
Lembro-me ainda da sensação de frustação e tristeza, que senti, há anos, junto de uma capelinha, em ruínas, em Santo Adrião de Vizela, a qual tinha por patrono, salvo erro, S. Crau.
A quebra dos sentimentos religiosos das pessoas dificilmente poderá explicar as razões que levam as comunidades a preservar na devoção a uns santuários e a abandonar outros.
E que pensar do triste acontecimento da destruição gratuita da nossa capelinha da Senhora de Lourdes?
Sim, podemos dizer nossa, pois fora oferecida ao povo de Vizela, mediante duas condições, a saber: 1º A Junta de Freguesia proceder à sua recuperação; 2º O culto ser restabelecido pela paróquia.
No cimo do Outeiro, que logo passou a ser conhecido por Monte de Nossa Senhora de Lourdes, deve ter sido edificada no início deste século, em terreno da grande quinta do Mourisco, cujo proprietário estava incluído nos 40 maiores contribuintes do concelho de Guimarães.
A capelinha talvez fosse propriedade privada, mas o povo logo principiou a assistir a actos do culto, pois grande era então a fama em 1858, nas faldas dos Pirenéus.
É também muito provável que a capelinha tenha contribuído para uma certa urbanização do local, dando origem à Rua de Nossa Senhora de Lourdes.
Mas as quintas pertencem ao passado e a do Mourisco, como tantas outras de Vizela, foi fragmentada e, por razões não conhecidas, os actos do culto, na capelinha, começaram a rarear, notando-se progressivamente a degradação do edifício. Causava consternação passar pelo local e poisar os olhos nos restos da ermida consagrada À Virgem!
Num gesto bonito, o proprietário do monte ofereceu a capelinha e a área envolvente à freguesia, e somente por motivos impeditivos de momento não foi possível fazer-se a escritura da transmissão.
O assunto tornou-se público e conhecido, e foi mesmo ventilado em várias reuniões da Assembleia de Freguesia. As Obras de recuperação iniciaram-se, com o dispêndio de algumas centenas de contos e dava gosto ver no local as árvores, a cruz, as colunas, a capela, pressentindo-se que estava ali um novo polo de atracção da Vila.
Os serviços Municipais de obras de Guimarães deram a sua colaboração, fazendo, em maio de 1994, o levantamento topográfico do local, e sugerindo o possível arranjo urbanístico.
Porém, a Câmara Municipal não considerou de interesse concelhio o imóvel e a sua zona envolvente, como, aliás, se impunha, o que obstaria à sua destruição.
E foi isto mesmo que se deu por iniciativa de alguém que se diz agora legítimo proprietário do terreno e da capela, que reduziu a escombros, mostrando desconhecimento ou desrespeito pelas leis do nosso País, pois o Regulamento Geral das Edificações Urbanas e o Regime Jurídico das Obras Particulares não consentem quer a construção, quer a demolição de edifícios sem prévia licença da Câmara Municipal.
Mas se errar é humana, já não é racional o persistir no erro. O mal está feito e o que urge é remediá-lo, porque o tempo das lamentações é tempo perdido. Só interessa verdadeiramente levantar a capelinha e urbanizar o seu recinto, transformando o recanto de Nossa Senhora de Lourdes num dos sítios aprazíveis da nossa terra.
Há que vencer as dificuldades encontradas, remover os escolhos surgidos, de modo que o povo de Vizela e a Junta de Freguesia possam merecer o reconhecimento dos vindouros, sendo bem possível que o próprio sr Armindo Salgado, que parece ter sido que deu origem a esta questão, se disponha a colaborar na recuperação da capela e do local.
Depende de todos e de cada um de nós que a capela de Nossa Senhora de Lourdes volte a sorrir-nos entre o verde do arvoredo, no monte que já foi seu."

23 Maio 1997
in "Notícias de Vizela"

A Capela de N. Srª de Lurdes

Sentimentalmente, andava meia arredada do coração das gerações mais jovens, arquitectonicamente não tinha grande valor. Na sua singeleza, era uma manifestação de Fé num momento de aflição e desespero.
No final da guerra de 14-18, uma terrível epidemia, julgo que de tifo exantemático, assolou o País. Tão terrível ela foi que, por sugestão do pároco de então. a freguesia de S. João das Caldas promoteu erigir uma capelinha a N. Senhora. Na época, o fenómeno Fátima era recente e não tinha ainda aceitação, pelo que dedicada foi então à Senhora de Lurdes, por nos ter salvo da epidemia.
Portugal tinha entrado na guerra e as finanças estavam em estado calamitoso. A freguesia vivia da agricultura e das termas, sendo incipiente a indústria. Feito o peditório, mal chegava o dinheiro para as obras. Em face disso, o sr. Melo do Mourisco colocou à disposição um terreno para dar satisfação à promessa. Corria o ano de 1919.
Tão pequenina era a capela e tão pouco o terreno, tão respeitosas as pessoas e tão diferentes os costumes que não houve necessidade de legalizar no papel a posse do terreno. Aliás, dedicado este à mãe de Jesus, quem se atreveria a questionar a sua posse?
Os tempos passaram e os costumes mudaram. De lá para cá, os terrenos circundantes, por herança ou por venda, mudaram cinco ou seis vezes de dono. Não o terreno da capela, que esse no entendimento dos fiéis, tinha dedicação definitiva.
E a capelinha, bem ou mal zelada, herança sentimental e espiritual dos nossos bisavós, no alto da colina, independentemente de todos os papéis passados nos cartórios, era património espiritual da freguesia ou, melhor dizendo, da paróquia.
Há quinze dias atrás, alguém que se reclamava proprietário, desprezando o sentir colectivo, arrasou a capela com um "bulidozer".

Alfa Kapa
Adelino Campante
in "Notícias de Vizela"


Capela Nossa Senhora de Lurdes
Autarquia de S. João quer Justiça

Reuniu no passado dia 14 de Maio 1997, em sessão extraordinária, a Assembleia de Freguesia de S. João das Caldas para analisar o comportamento de um cidadão, que derrubou a Capela da Senhora de Lurdes, situada no antigo Monte das Cruzes, na mesma freguesia.
Desta reunião, emanou a vontade dos políticos presentes em accionar todos os mecanismos ao seu alcance, mormente junto do gabinete jurídico da Câmara Municipal, ou através de um advogado particular a fim de ser instaurado um processo, de forma a chamar o autor do derrube a capítulo.
Ao abrir a Assembleia, o presidente Domingos Pedrosa, antes de dar a palavra aos deputados presentes e foi a totalidade, expôs a situação para que fosse exprimido por todos, com conhecimento de causa, não só o derrube da dita Capela, mas também a destruição das árvores e cruzes envolventes.
De seguida, Abílio Meneses pormenorizou o problema, dizendo que a capela encontrava-se degradada e abandonada e a Junta de Freguesia, juntamente com a Paróquia de S. João estudaram a melhor maneira de fazer daquele local um sítio aprazível. "Isto depois de terem garantia do antigo proprietário, António Oliveira que o terreno e Capela estavam doados à sua Junta de Freguesia.
Diria ainda que entre o autor da destruição da capela, Armindo Salgado e António Oliveira se faria uma permuta de terrenos, o que não chegou a acontecer, devido aos problemas que afectaram as "Sedas Vizela". Esta situação levou ao desagrado e à acção do "demolidor".
Armindo Salgado sentindo que aquilo já não era dele, ficou como lesado e começou por deitar abaixo as árvores e as cruzes. Prontamente, através da Junta, foi chamado à Câmara Municipal para explicações. O facto é que nada foi feito pela Câmara para impedir que as coisas se agravassem, o que veio acontecer com o derrube da Capela.
Domingos Pedrosa foi testemunha do alerta da funcionária da Freguesia para a Polícia Municipal intervir. Aquela recebeu como resposta destes que o terreno era de Armindo Salgado. Para Domingos Pedrosa, não é compreensível que a Polícia Municipal cruzasse os braços a esta situação já que para construir e destruir é necessário uma licença.
Foram colocado várias ideias entre todos os deputados, para se concluir um processo, de maneira a obrigar a reconstrução da Capela. Foi feito um comunicado de apelo urgente à Câmara Municipal de Guimarães para que se inteire deste problema já que esta Capela é, deve ser, um património da concelhia de Guimarães.
A Junta exige a restauração plena da capela à custa de Armindo Salgado. Uma tarefa que se afigura bastante difícil, mas vale a pena esperar para ver."

in "Notícias de Vizela" 23 Maio 1997


Capela ainda "mexe"

A Assembleia, Junta de Freguesia e paróquia de S. João das Caldas enviaram ao Presidente da Câmara Municipal de Guimarães e Presidente da Assembleia Municipal um comunicado e um esclarecimento sobre a destruição da capela da Senhora de Lurdes.
O comunicado extraído da assembleia de freguesia extraordinária, realizada no dia 14 de maio, analisou os "graves acontecimentos ocorridos", tendo elaborado três pontos que foram enviados às entidades supramencionadas:
1º repudiar veementemente o atentado perpetrado por Armindo Salgado, contra a freguesia, a vila e a própria Igreja cristã;
2º Exigir que a Câmara tome providências que o caso impõe para que os direitos da freguesia sejam preservados, sendo-lhe restituídos os terrenos e a capela reconstruída.
3º Informar que estavam já previstas, para esta zona, importantes intervenções de valorização conforme primeiro trabalho feito pela Câmara, através dos respectivos serviços com um levantamento topográfico datado de 1994»
Por seu lado, o pároco de S. João, redigiu uma declaração que foi apensada ao ofício da autarquia e que refere: «O cónego Albano da Silva Freitas, pároco da freguesia de Caldas de Vizela-S.João, para esclarecimento da verdade, informa que nos terrenos da Casa do Mourisco, dedicada a Nossa Senhora de Lurdes existe (existia) uma Capela propriedade da Família Sá e Melo.
Embora de carácter privado, mas por vontade da família Sá e Melo, a referida Capela esteve sempre sob a atenção do Pároco da freguesia.
Assim, em 1949 foi lá benzida a imagem de Nossa Senhora de Fátima que se encontra na Igreja de Sã João e, na presença de grande multidão, se organizou majestosa procissão de velas para a Igreja Paroquial e no mesmo ano também ali se realizou um casamento de pessoas ligadas à Casa do Mourisco e que consta do Arquivo do Registo Paroquial".
Estes documentos já se encontram na Câmara Municipal esperando agora os autarcas e pároco de S. João que a edilidade assuma o papel de juíz e aplique uma pena contra a pessoa que procedeu à demolição, sem qualquer autorização.
Recordamos que a Junta havia investido na capela cerca de um milhar de contos, depois de autorizada para o efeito por António Oliveira que prometera a Armindo Salgado um terreno em troca, na Barrosa. Só que a permuta nunca mais se dera e Armindo Salgado, sentindo-se defraudado dos seus direitos passou ao ataque. Depois de uma primeira investida em que destruiu as árvores plantadas e partiu as cruzes exteriores da capela, contratou um caterpiller e provocou no local um autêntico sismo de grau nove.
O autor da demolição, nesta atitude invulgar, visou desocupar o terreno de qualquer edifício que possa impedir a construção de prédio urbano. Ao que disse, um emigrante ofereceu-lhe 15 mil contos pelo terreno, mas sem a capela. Resta saber se a Câmara Municipal, que tem agora a batata quente nas mãos, irá um dia mais tarde aprovar qualquer construção em lugar da reconstrução da capela. Pelo menos, Armindo Salgado diz que na "Câmara resolve tudo".
Dado que a capela não tem registo e no local não foi feito qualquer levantamento urbanístico, os autarcas interrogam-se agora, como foi possível construir-se tantos prédios naquele monte, ao ponto da capela ficar encoberta.
Mas se os políticos não sabem, quem vai saber?"

in "Notícias de Vizela"