on 16 de novembro de 2016

As professoras Maria José Oliveira e Valéria Freitas Pereira, responsáveis pelo projeto Cittaslow Education, publicaram um artigo acerca do Projeto Cittaslow Education, do Agrupamento de Escolas de Infias, como boas práticas em território nacional. Confira o artigo nas páginas da revista "Smart Cities" - Cidades Sustentáveis.





Cittaslow Education: Projeto de Sustentabilidade Educacional com intervenção na Cidade

“Que educação para uma sociedade de conhecimento sustentável?” (Shalberg. P.)

A Educação, em todas as suas formas, pode moldar o mundo de amanhã, instrumentalizando indivíduos e sociedades com as habilidades, perspetivas, conhecimento e valores para se viver e trabalhar de maneira sustentável e empreendedora. A formação de cidadãos responsável e dinâmicos para agir nas mudanças sociais e ambientais positivas, implicando uma ação participativa e consciente. 

Aumentar simplesmente o tempo de permanência dos alunos na escola, não desenvolverá significativamente sociedades sustentáveis e empreendedoras. A educação deve focar-se na comunhão de conhecimentos, habilidades, valores e perspetivas que encorajem e apoiem a criatividade e inovação. Para as sociedades atuais e futuras, temos que repensar e rever a educação desde o Pré-Escolar até a universidade para incluir mais princípios, habilidades, perspetivas e valores relacionados com a sustentabilidade e a criatividade nas áreas de intervenção prioritária das cidades - Comunidade e Cultura, Área Social, Natureza e Gestão Ambiental, Economia e Emprego, Educação e Formação, Turismo, Mobilidade e Ordenamento do Território. 

A sociedade atual exige de todos um constante papel de auto-aperfeiçoamento e de resolução criativa de problemas respeitando sempre a identidade cultural e patrimonial.

Vive-se, nos tempos presentes, "a sociedade da criação" (Portnoff, 1992). Os conhecimentos renovam-se rapidamente, em consequência dos progressos científicos e tecnológicos. Já não basta trabalhar bem, é preciso fazê-lo cada vez melhor. Há que desenvolver as capacidades que ajudem os indivíduos a mais facilmente se adaptarem a novas circunstâncias e situações. Há que apelar à nossa inteligência, mas também à nossa criatividade atendendo sempre ao respeito pelo viver lento numa perspetiva construtivista mas consciente. “Já só é possível funcionar com eficácia se a ação for baseada em todas as potencialidades das pessoas. Desenvolver o nosso potencial criativo é mesmo urgente" (Portnoff, 1992)”.

"O sistema formal de educação numa sociedade dá relevo à manutenção das normas de uma cultura. A fim de desenvolver uma sociedade, considera-se necessário fornecer novos conhecimentos e capacidades através de livros e de experiências de aprendizagem nas escolas. Na avaliação dos resultados da aprendizagem na escola tem-se, por conseguinte, a tendência em dar ênfase ao conhecimento, à compreensão, à sagacidade crítica, à inteligência, à aptidão, etc.. Só recentemente é que a Sustentabilidade, Criatividade e o Empreendedorismo e o seu estudo se tornaram importantes devido aos rápidos desenvolvimentos da ciência e tecnologia. Tem-se agora consciência que para uma sociedade ser salva da estagnação e para o indivíduo atingir o seu pleno desenvolvimento, qualquer sistema de educação deve encorajar a Sustentabilidade, Criatividade e o Empreendedorismo. Constata-se que a Sustentabilidade, Criatividade e o Empreendedorismo estão a ser introduzidos nos currículos escolares e na avaliação". Esta perspetiva é visível em alguns documentos da denominada Reforma Educativa, como seja a Lei de Bases do Sistema Educativo, nomeadamente ao nível das intenções e dos objetivos. A tendência parece ser a de deslocar a prioridade do ensino dos conteúdos para a aquisição e desenvolvimento, nos alunos, de métodos e processos e da passagem de uma aprendizagem por receção para uma aprendizagem por descoberta. De facto, alguns documentos centrais do atual sistema de ensino português não deixam de apregoar a criatividade como uma dimensão importante do processo de desenvolvimento das nossas crianças e jovens. Assim, lavra a Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei n.º 46/86, de 14 de Outubro), no seu artigo 5º, que um dos objetivos da educação pré-escolar é "desenvolver as capacidades de expressão e comunicação da criança, assim como a imaginação criativa e estimular a atividade lúdica". E no artigo 7º determina que um dos objetivos do ensino básico é "assegurar uma formação geral comum a todos os portugueses que lhes garanta a descoberta e o desenvolvimento dos seus interesses e aptidões, capacidade de raciocínio, memória e espírito crítico, criatividade, sentido moral e sensibilidade estética (...)".

Desenvolver na escola, nos alunos, na comunidade uma filosofia Cittaslow, é fazer de todos cidadãos de futuro onde todas as missivas de desenvolvimento podem e devem acontecer com um sentido implícito de responsabilidade e consciência. Não basta sonhar… torna-se imperativo sonhar enquanto ser consciente do seu “eu” e do seu saber estar e saber ser para viver com qualidade. 

A filosofia Cittaslow, apoiada pelo movimento Slow estendeu-se à cidade e aos problemas urbanos. O lema era o elogio à lentidão, numa altura em que a mesma está pouco na moda, afogada sob os termos de eficácia, rentabilidade, crescimento. Este movimento trouxe à cidade uma nova abordagem para a mesma, que em vez de facilitar a rapidez, os intercâmbios estritamente funcionais e muitas vezes mercantis, dá a possibilidade aos habitantes de aproveitar o tempo, a sua existência, criar novos espaços propícios às relações humanas, a todo tipo de reflexão e de ação difíceis de realizar rapidamente, na urgência e no stress. Com base neste modo, que começou por interessar-se pela comida, estendeu-se à cidade, à viagem, à cultura, e à educação com o Cittaslow Education!

O objetivo desta Filosofia Cittaslow é de criar uma maior qualidade de vida para todos, de forma a (re) encontrar a ideia de bem-viver.

Com base na Filosofia Cittaslow, cidades de bem viver, a consciência do “ Eu” vem possibilitar o sucesso na implementação desta na Comunidade através da Comunidade Educativa. Esta promove uma pesquisa acurada acerca do passado e das origens das cidades para reconhecer os seus valores com o desígnio de possibilitar a implementação de políticas que valorizem a qualidade de vida dos cidadãos.

A Cittaslow Education implementou esta filosofia de modo a formar cidadãos conscientes do valor da vida, possibilitando a partilha de experiências intergeracionais na procura de soluções que permitam e potenciem a vivência de qualidade em comunidade. A participação da população local, marcada em comunidades pequenas e médias, são elementos de grande importância (Fadini, 2013). A comunidade local é a união central que liga todos os elementos do sistema sustentável. Atendendo a esta dinâmica, o envolvimento da população numa abordagem “bottomup” enfatiza a tomada de decisão local, participação comunitária e mobilização popular, fortalecendo a interação social entre os membros do colectivo, a percepção de enraizamento territorial e o sentimento de preservação da identidade da cidade. 

É neste elogio à lentidão, caracterizado por um caracol, que Vizela uma pequena cidade decidiu candidatar-se à Rede Internacional Cittaslow, sendo a primeira classificação no Norte de Portugal a conseguir este estatuto. As melhoras em infra-estruturas e qualidade ambiental serviram de suporte à obtenção da certificação Cittaslow em 2011. 

Dada a dificuldade em envolver a população na dinâmica Cittaslow o Agrupamento de Escolas de Infias, consciente da importância da dinâmica, fundamentos e estrutura do movimento internacional, criou no em Setembro de 2012, em Vizela, o movimento Cittaslow Education, através das Professoras Maria José Oliveira e Valéria Freitas Pereira.

Este projeto único e pioneiro a nível mundial desenvolve um programa que incentiva e possibilita aos alunos dos 3 aos 18 anos de idade o acesso a uma democracia igualmente participativa e eficaz, proporcionando uma intervenção e contributo no desenvolvimento e bem-estar da comunidade em prol das “CittàdelBuonVivere”.

O Programa assenta numa adequação dos princípios do movimento Cittaslow com reflexo nos alunos mais novos, adequando linguagens e conceitos, mas mantendo inalterados os princípios basilares Cittaslow. O objetivo primordial deste projeto prende-se com a criação de cidadãos para o futuro, garantindo assim uma base educacional mais atenta e consciente para as gerações futuras. Através de uma cidadania esclarecida serão potenciadas novas dinâmicas de entendimento, de desenvolvimento, de empreendedorismo, e de qualidade de vida social, económica e ambiental. A valorização do património local e a sua divulgação para e por parte dos residentes locais forma igualmente parte deste projeto. Através das crianças e jovens estudantes pretende-se projetar uma atitude, uma identidade, promovendo uma vivência com maior qualidade atendendo ao desaceleramento das cidades que curiosamente muitas vezes é transmitida de forma “bottom-up familiar”, de filhos para pais e comunidade. 

O projeto Cittaslow Education pretende formar cidadãos com visão do mundo que ultrapasse as barreiras do comodismo, da disputa pelo poder, do egoísmo, sendo pessoas atuantes com capacidades de olhar o ideal de liberdade nas suas relações em sociedade, tendo a possibilidade de agir em sociedade.

Ser Cittaslow, hoje, é ser uma mais-valia para a sociedade, seja numa ação na cidade, num país ou no mundo. As competências e as atitudes são fundamentais para o sucesso, deste modo às novas gerações exige-se que tenham excelentes conhecimentos, mas que sejam também capazes de os aplicar e mobilizar. 

A Escola está inserida num mundo de mudança, o que cria novos desafios à Educação. Torna-se imperativo transmitir aos nossos alunos conhecimentos, atitudes e competências que lhes permitem adaptar às mudanças que estão a ocorrer nomeadamente através do aumento da sua motivação de aprender sem esquecer a responsabilidade de melhorar o nível de desempenho escolar a que os mesmos se encontram sujeitos. As crianças e jovens revelam maior interesse pelos conteúdos e pelas atividades em regime de aprendizagem ativa. Os alunos tendo a possibilidade de experimentar, construir e de se desafiarem continuamente acabam por reforçar a sua consciência do eu e revelarem uma motivação para desafios diferentes.

O incentivo da filosofia Cittaslow torna-se assim essencial para incentivar as nossas crianças e jovens a assumirem uma atitude positiva perante os problemas com que diariamente se debatem ao nível familiar, social, cultural e económico. Por outro lado, poderão ver o resultado da sua ação, uma vez que lhes permite obter as bases que os ajudam a construir a sua identidade ao mesmo tempo que reforçam as suas capacidades interventivas na sociedade. “O processo de ensino/aprendizagem evoluirá no sentido de melhor preparar os alunos a lidar com estes desafios colocando-lhes questões, ao mesmo tempo que procurarão e encontrarão os recursos apropriados para responderem a esses desafios e questões ao mesmo tempo que terão a oportunidade de conhecer, compreender, interpretar e refletir acerca da complexidade do mundo atual, nomeadamente no que ao seu futuro diz respeito” (Banha, 2015). Neste sentido os programas curriculares desenvolvidos na Cittaslow Education vão permitir aos alunos compreenderem as atitudes e as competências pessoais que os poderão “levar a obter sucesso, através das experiências e das vivências que vão tendo ao longo do todo o seu percurso escolar e, acima de tudo, a empreender e a destacarem-se, saindo da sua zona de conforto” (Banha, 2015). Desta forma, entendemos que a prática pedagógica deve pois ancorar-se na dinâmica da sustentabilidade e da autenticidade reconhecida dos lugares, enquanto elementos fundamentais da diversidade nacional.

Segundo Jacques Delors “À educação cabe fornecer, de algum modo, os mapas de um mundo complexo e constantemente agitado e, ao mesmo tempo, a bússola que permite navegar através dele”. 

Neste contexto, o professor atinge os seus objetivos didáticos, pois as atividades pedagógicas são desenvolvidas de forma inovadora que permite a descoberta por parte do aluno. O que se pretende é a organização de situações de aprendizagem relacionadas com os conteúdos curriculares, valores éticos e estéticos, além de atitudes formativas para a sustentabilidade. A realização das atividades permite aos alunos desenvolver competências que, na maioria das vezes, não encontram espaço no ambiente escolar. 

Os métodos utilizados na disciplina Cittaslow Education assentam em modelos onde as aprendizagens se adquirem através da dinâmica “ ensinar a investigar”. As aulas tradicionais são substituídas por projetos temáticos, atendendo às áreas prioritárias de intervenção da cidade, nos quais os alunos se apropriam do processo de aprendizagem. Os alunos decidem a temática a desenvolver (após inquéritos feitos à população), planificam, são pesquisadores e também avaliam as atividades desenvolvidas. Posteriormente é feita uma avaliação à população de modo a aferir qual o impacto que a atividade causou ao nível da cidade e da comunidade.

A disciplina está dividida em quatro módulos de modo a garantir as aprendizagens fundamentais, que serão para cada indivíduo as bases do conhecimento ao longo da vida: “O Sonho: “Quem sou e quem quero ser?... Consciência do Eu” - consiste em aprender a saber estar e saber ser, que, talvez, seja o mais importante por explicitar o papel do cidadão e o objetivo de viver; “ Conhecer a Cidade Cittaslow” aprender a conhecer indica o interesse, a abertura para o conhecimento, que verdadeiramente liberta desperta a curiosidade e a produção de conhecimento; “Empreender para o futuro – Destino do Caracol” aprender a fazer, mostra a coragem de executar, de correr riscos, de errar mesmo na busca de acertar; ” Empreender para viver Cittaslow...” aprender e fazer conviver traz o desafio da convivência que apresenta o respeito a todos e o exercício da consciência das coisas como caminho do entendimento para a preservação da identidade da cidade; 

Os módulos, os saberes e competências a adquirir são apresentados, aparentemente, divididos no entanto, não podem dissociar-se por estarem interligadas e inerentes, constituindo a interação com o fim único de uma formação holística do indivíduo permitindo a formação de “Cidadãos de Futuro”.

Conscientes que implementar a mudança ao nível da educação para uma vivência Cittaslow é revelador de um trabalho extraordinário torna-se necessário capacitar professores para esta missão. Entendemos, no entanto, que os Professores em articulação com a comunidade proporcionam o desenvolvimento de um ambiente de aprendizagem apropriado ao encorajamento da criatividade, da inovação e da capacidade de “pensar fora do convencional”, thinkoutsidthe box, para que os nossos alunos se preparem para enfrentar os desafios da Era Criativa que está e irá continuar a caracterizar o século XXI, sem descurar a vivência Cittaslow em que viver bem é a chave fundamental. 

O objetivo de apostar na educação e formação como forma de promover uma cultura Cittaslow é possível, conforme o tem demonstrado os resultados alcançados no Cittaslow Education que temos liderado no seio do Agrupamento de Escolas de Infias-Vizela como resultado da visão estratégica do Movimento Internacional Cittaslow. A filosofia Cittaslow na dimensão educacional continuará a percorrer o caminho correto e, nesse sentido, criar novas realidades de forma a contribuir para uma mudança estrutural. 

O espírito Cittaslow, no Agrupamento de Escolas de Infias transformou-se numa disciplina amplamente estudada neste sistema de ensino aprovada pelo Ministério da Educação, e a formação de docentes (acreditada pelo Ministério da Educação) sobre a abordagem do conceito deste espírito nas salas de aula esta já desenvolvida, propondo dar a conhecer boas práticas para fomentar atitudes e competências Cittaslow na juventude através da educação, desde o ensino Pré- Escolar até ao ensino Universitário. 

Não é necessário ser um especialista em educação para sabermos que a educação Cittaslow desempenhará um papel muito importante no futuro dos nossos alunos, quando em idade adulta tiverem de ingressar na sociedade dos nossos dias. É nossa vontade que cada vez mais crianças e jovens-e não só aqueles que têm, felizmente, o privilégio de terem nascido em Municípios cujos responsáveis manifestam um total alinhamento com as citadas boas práticas- estudantes e respetivos Professores possam beneficiar do presente movimento Cittaslow Education. 

A Cittaslow Education pretende que “a educação para o desenvolvimento sustentável represente uma oportunidade de transformação das sociedades. A preservação dos recursos naturais e produtivos para as gerações futuras pode ser potencializada através da educação” (Gavião, 2015). 

Esta vontade, ousada num contexto de diminuta intervenção cívica, determina a concentração dessa resposta em áreas de aplicação perfeitamente definida, em que a educação/sensibilização para a filosofia Cittaslow/sustentabilidade assumem um papel-chave e transversal.

A tomada de consciência e mobilização da comunidade com a vontade de conseguir modificar e ampliar comportamentos individuais encarados como rotineiros, habituais e naturais são assim os princípios que regulam o Cittaslow Education, assumindo-se como a capacidade de “construção do futuro” a partir do envolvimento e estratégia “bottom-up” dos atores com relevância na decisão e na ação, no sentido em que ambiciona gerar as dinâmicas necessárias a nível comunitário de modo a produzir efeitos multiplicadores a longo prazo e noutras escalas de governação.

Adquirirumaperspetiva deDesenvolvimentoSustentável, no âmbito da Cittaslow Education, para oConcelhode Vizela,antevê umaabordagemholística na "tendência da natureza de usar a evolução criativa para formar um "todo" que é maior do que a soma das suas partes" (Christiaan Smuts, 1926), integradora da economia local e regional, do turismo, da sociedadee, respeitando a biodiversidade e os recursos naturais, impulsionadora da solidariedade intergeracional e tanto da cooperação como daco-responsabilização entre instituiçõese territórios.

As pessoas e os agentes económicos devem tomar conscienciar das potencialidades do seu meio e modificar mentalidades agindo de forma mais humana, mais holística e altruísta. É através da educação, baseada na valorização da cidadania e da assunção de valores ambientais que se transmite às pessoas e aos alunos o paradigma da sustentabilidade. A busca da sustentabilidade preza sempre a qualidade de vida, no entanto esta é muito difícil de ser alcançada. 

Como profissionais da educação, temos a consciência do sucesso deste movimento Cittaslow Education, que está implementado e bem enraizado na cidade de Vizela e que tem sido solicitado pela Cittaslow Internacional para a criação de uma rede a nível mundial. São várias as cidades interessadas em disseminar o Cittaslow Education que ajuda na descoberta de soluções de qualidade e harmonia que contribuem para a edificação de uma “Arquitetura Sustentável” para as cidades.

Que se encontre e reencontre a ideia de bem- viver…

Maria José Oliveira
Valéria Freitas Pereira