on 29 de dezembro de 2016

O Vizelense Pedro Pedrosa está neste momento num programa de ajuda humanitária internacional, nomeadamente de intervenção junto dos refugiados que arriscam a sua vida para chegar a solo europeu. Pedro Pedrosa, que tem já participado em acções nacionais mas também internacionais, comentou a sua experiência ao Plano Claro diretamente da Grécia.

Como está a correr a missão?

"Eu estou neste momento na ilha de Lesbos na Grécia, pela segunda vez este ano. Vim cerca de 3 semanas em Outubro e agora mais 3 semanas antes do natal e regresso no início de Janeiro a Portugal.  Eu venho sempre nas minhas férias do trabalho. Aqui estou a trabalhar com uma organização chamada ERCI - Emergency Response Centre International, que é uma organização que faz resgate no mar."

Que tipo de cenário estás a encontrar neste momento? e que ajuda é dada?

"As pessoas tentam atravessar da Turquia para a Europa e este local é dos pontos mais curtos para fazer a viagem via mar, o que não faz disto uma viagem menos perigosa. Milhares de pessoas já morreram no mar Egeu a tentar esta travessia. Aqui temos vários turnos de vigia nas praias à espera de barcos e temos também turnos nos nossos barcos no mar. O trabalho dos voluntários é rodar pelos turnos e sempre que temos um barco ajudar, tanto no mar, como na praia".


"A ajuda que damos é inicialmente de resgate (nadador salvador por exemplo) assegurar que o barco aterra de forma segura, e depois de evacuadas todas as pessoas do barco damos a assistência médica (maior parte das vezes casos de hipotermia, fraturas nos membros ou paragem cardiorespitatória). Depois de toda a gente estar tratada, coordenamos com as autoridades locais uma forma de eles irem para os locais de acolhimento destinados aos refugiados.
O trabalho no mar é semelhante, mas são trabalhos em colaboração com os outros stakeholders, como é o caso da guarda costeira grega, navios da Frontex (espécie de polícia europeia) e a NATO. Prestamos assistência pois estes barcos não tem condições de resgate nem têm tradutores nem paramédicos com eles".

Agora em dezembro continuam a chegar muitos refugiados? quais as dificuldades?

"Desde que cá cheguei agora já tivemos 3 barcos, dois chegaram a costa com feridos ligeiros apenas, e um foi recolhido em alto mar pela fragata británica 'Protector'. As grandes dificuldades a nível geral são as pessoas que se estão a acumular nos campos da ilha, principalmente em Moria, o campo tem lotação para 2000 e estão mais de 5000 residentes, e essas pessoas não tem como sair de lá. A Europa não está a receber ninguém.

As questões diplomáticas também não estão a ajudar neste momento...

A EU fez um acordo (?!*!*!!*?) com a Turquia onde basicamente "trocam pessoas e dinheiro" como se fosse mercadoria, na obrigação de a Turquia fechar as fronteiras e a EU tratar de dar visto a cidadãos turcos em território Europeu assim como abrir o processo de entrada da Turquia na EU.
Só para termos a noção:
- 2015: mais de 1 milhão de pessoas vieram para a Europa via mar, morreram cerca de 3500.
- 2016: cerca de 400 000 pessoas vieram para a Europa via mar já morreram quase 5000
É a prova que este acordo está a falhar. E também que todas as entidades no mar e em terra não têm como objectivo a segurança destas pessoas mas apenas garantir que eles não venham mais.


Sentem esses problemas no terreno?

"Por exemplo, um dos problemas que tivemos há dois dias: As pessoas foram obrigadas a ficar na praia à espera dos autocarros mais de uma hora ao frio e alguns com roupas molhadas. Os nossos carros estavam a uma distância de 300 metros com ravinas pelo meio. O apoio que prestamos foi praticamente impossível ficando as pessoas em sofrimento e a agravar a sua condição por mais de uma hora ao frio. Depois quando veio o transporte vieram duas carrinhas, uma de 9 lugares e outra celular de transporte de reclusos. As 33 pessoas foram nessas carrinhas, transportados que nem animais, incluindo 7 crianças, uma duzia de mulheres e duas delas gravidas.É mais ou menos isto. A situação não está a melhorar e tem havido um crescendo dos barcos a vir por este caminho".



Há soluções em vista?

"A única solução é a Europa acolher quem quer vir, como manda a lei internacional aliás, e principalmente criar uma passagem segura para estas pessoas. Deixar as pessoas entrar de forma segura e depois averiguar se podem ou não ter o estatuto de refugiados, mas é importante que estas pessoas, na sua maioria que fugiram à guerra não morram no caminho até cá chegar.
E depois é preciso libertar as pessoas da Grécia, há pessoas aqui em Lesbos, com a situação resolvida para irem para Portugal e esperam na ilha há mais de dois anos. O campo de Moria é uma vergonha, há mortes, prostituição, violações, incêndios, motins tudo que se possa imaginar porque as pessoas estão lá detidas meses e até anos sem uma solução, isto porque a Europa se fechou, a Alemanha e a França principalmente não irão abrir as portas até que sejam feitas as eleições em 2017".


Existe na opinião pública o sentimento de "importar terroristas" nessas acções, concordas?

"Terroristas não, impossível. Os terroristas em solo Europeu, em 90% têm passaporte europeu, não precisam de vir por estes meios".


O vizelense Pedro Pedrosa que já passou o natal nesta missão humanitária e que se prepara também para passar o Ano Novo em missão, durante a sua pausa laboral, continua a publicar na sua rede social cenários tristes e desoladores de homens, mulheres e crianças. Histórias pessoais de famílias que deixaram tudo para trás, que arriscam a sua vida e por vezes dão a sua vida para salvar as suas crianças. Pedro Pedrosa comentou ainda que "na Europa já desapareceram cerca de 40 000 crianças refugiadas, muitas delas vieram não acompanhadas!".

O Plano Claro aproveita para desejar a toda a equipa de voluntários a solidariedade pela missão.

Pedro Pedrosa em baixo à direita com um grupo de voluntários

Local onde Pedro Pedrosa está a realizar o voluntariado