on 2 de novembro de 2017

Numa altura que começam novamente a colocar as Termas de Vizela na atualidade política com reuniões, renegociações, busca de novas parcerias e tentativas, no fundo, de mudar o paradigma atual que não tem correspondido ao desejado da população, importa ainda relembrar um pouco o passado.
Através de várias publicações de vizelenses mas também em artigos online, como é o caso da publicação da Universidade de Lisboa (ICS), sabe-se que neste mês de novembro fará 143 anos da assinatura do contrato que dava início à oficialização do "império" termal em Vizela. A primeira construção estava estimada em 327 contos.

"Esse contracto tinha efectivamente sido assinado a 18 de Novembro de 1874 e enviado ao Governo, que depois de o analisar propusera algumas alterações. “A Câmara e a Companhia aceitaram as modificações indicadas pelo governo” apresentavam-no nessa sessão à apreciação dos deputados. 
A Câmara de Guimarães optara por ceder as águas termais a uma sociedade anónima de responsabilidade limitada por razões orçamentais. A construção de um balneário, com traço do eng.º Bartolomeu Achiles Dejante, já falecido à altura do debate, estava estimada em 327 contos, e “foi por isso que a Câmara de Guimarães, no louvável empenho de dotar o seu concelho e o país com um estabelecimento à altura dos que lá fora existem desta natureza, contratou com a companhia de Banhos de Vizela […] a realização dos melhoramentos naqueles banhos, que a escassez dos rendimentos municipais lhes não permitia fazer”.
Seguiu-se a leitura do contrato, já com as modificações impostas pelo governo, que no artigo 1.º definia a área a ceder à companhia: “Todas as nascentes de águas termais e medicinais situadas nas freguesias de S. João e S. Miguel das Caldas […] bem assim todos os terrenos, pedreiras e prédios municipais, que ficam a um raio de 600 metros do meio da ponte nova para o norte do rio, e a um raio de 300 metros para Sul do mesmo rio”. Quanto aos preços praticados no futuro balneário, o contrato impunha certos limites para os banhos de 3.ª e 4.ª classe, enquanto que para os banhos de 1.ª e 2.ª classe “ a companhia poderá fixar o preço que julgar conveniente […] bem como pelo gozo dos jardins e parques que abrir à sua custa.” Quanto aos outros banhos, os limites eram de 200 réis para os 3.ª classe “ em banheiras de uma pessoa”, e de 40 réis para os 4.ª classe, “dados em tanques não excedentes a seis pessoas”. A companhia era ainda obrigada a dar banhos gratuitos a indigentes e militares, “os quais serão fornecidos em tanques que não excedam a dez pessoas”.
O que assustava a representação das 13 freguesias do concelho de Guimarães era o artigo 7.º deste contrato, que declarava as águas termais de utilidade pública e consequentemente previa a demarcação de "um perímetro de protecção, dentro do qual se não poderão executar, sem prévio assentimento da direcção e conselho fiscal da companhia, sondagens nem trabalhos subterrâneos”. Por esta razão o projecto baixou novamente à comissão de administração pública para análise de um eventual “perigo de invasão do direito de propriedade e expropriações sem indemnizações prévia, o que é contra a carta constitucional.“
A questão de Vizela voltou às Cortes dia 6 de Março de 1875, já com um parecer da Comissão, que proponha a formação de um tribunal arbitral para resolução de eventuais problemas que surgissem entre proprietários e a companhia. Este tribunal era constituído por dois peritos nomeados pelos proprietários, outros dois nomeados pela companhia e pelo director de Obras Públicas do distrito. Seguiu-se um longo debate, onde intervieram pela parte da representação dos proprietários os deputados Pires de Lima e Luciano de Castro, e pela parte da companhia os deputados Vasco Leão e Jerónimo Pimentel.
Por fim a lei foi aprovada só com modificações propostas pela Comissão de Administração Pública, e o “adiantamento” dos deputados pró-proprietários “depois de consultada a Câmara […] foi rejeitado” (cf. Leis e Debates 2004).
O novo balneário foi inaugurado em 1892 com um projecto da autoria do engenheiro Manuel Pereira Viana, eram então directores da Companhia Abílio da Costa Torres, Bernardino Leite de Faria e Domingos de Sousa Júnior.
Lopes (1892: 404) refere mais uma vez as ruínas e achados romanas um pouco por toda a zona termal e descreve os balneários erigidos pela Companhia como “um vasto e bem montado estabelecimento termal, dotado de numerosos quartos com boas tinas de mármore, piscinas e quatro magnificas salas com todos os aparelhos para duches e outros processos hidroterápicos”. Nestes equipamentos contavam-se aparelhos de pulverização, irrigação e inalações para tratamentos de doenças respiratórias. O autor estima a frequência anual superior a 3000 aquistas e considera que “pelos melhoramentos e remodelações no último ano ali efectuadas, fica este balneário sendo um dos melhores de Portugal, devendo, na próxima abertura da temporada das águas, ser inaugurada a sala dos banhos de lodo e outras novas e importantes instalações.” 
Sarzedas (1907: 86), no seu Relatório de Inspecção referente ao ano de 1906, menciona mais uma vez os testemunhos da exploração romana: “Alguns aparelhos balneários e fragmentos da antiga canalização ainda lá são conservados, a titulo de preciosidade arqueológica, bem como medalhas moedas, inscrições, troços de colunas e muitos restos de peças de arquitectura […] As piscinas constituem sem duvida o melhor achado. Uma de forma semi-circular, que dava ao banho da Meia Lua, outra quadrada que servia ao banho grande e outra octogonal contribuem a dar mostras de quanto aparato e luxo os romanos revestiram aquelas termas ”. E classifica este estabelecimento como dos mais bem instalados do país: “Para bem se poder avaliar do estado progressivo da estancia e do seu arsenal balneário basta notar que pode fornecer 1500 banhos em catorze horas de serviço diário."

A Companhia dos Banhos de Vizela tinha adquirido os Banhos de Mourisco em 1903, mas à data da visita do médico inspector (1906) havia ainda outro balneário de exploração diferente, os Banhos do Paulino, no Largo de Franco Castelo Branco, que Sarzedas descreve do seguinte modo: “Ocupa o balneário o pavimento do rez-do-chão do edifício, onde em duas pequenas sala continuas, de demora para os doentes, se convertem ainda assim nas válvulas de salvação, pelo que diz respeito à iluminação natural e à ventilação, para o resto no mesmo pavimento edificado. Em treze acanhados gabinetes, de mobiliário modesto, tomam lugar dezasseis banheiras, duas de mármore e catorze de zinco e folha, destinados à três classes dos banhos de imersão, havendo mais um acanhadíssimo compartimento com aparelhos destinados ao duche de agulheta e banhos de chuva. Por pulverizadores e inaladores manuais se proporciona também tratamento na estância. A água para os banhos é aquecida numa velha caldeira de vapor, e a buvete, para os que usam a água internamente, é o poço. O 1.º e 2.º andar do edifício estão convertidos em hospedaria […] Dificilmente se conseguirá já, fazer daquela instalação uma instalação perfeita, ao ter em conta os defeitos que lhe vem da construção.” (p. 91).

Os Banhos do Paulino foram tema de um debate na Câmara de Deputados republicana. Na sessão de 25 de Agosto de 1915, o deputado Mesquita de Carvalho interpelou o ministro do Fomento, Manuel Monteiro, acerca do encerramento desse balneário. O ministro confirmava o encerramento “ em virtude de queixas – três foram elas – feitas pela empresa termal de Vizela que, como V. Ex.ª sabe, ali se encontra estabelecida, e à qual se deve a reputação, o aproveitamento e a fama de que gozam aquelas águas minero-medicinais”. O estabelecimento conhecido por “Banhos do Paulino” tinha um funcionamento “quase rudimentar [que] prejudicava a saúde pública, e ainda o facto de ser canalizado para ali água potável, que era introduzida nos banhos, prejudicava a reputação daquelas águas”. Confirmados os factos, verificou-se que o então novo proprietário não tinha requerido a homologação da licença, e que a lei de 1892, com o seu regulamento de 1894, obrigava a fazer no prazo de 60 dias, razão suficiente, no entender do ministro, para decretar o encerramento desses banhos. Mas o deputado defendia que essa mesma lei, neste caso da falta de pedido de homologação, previa que só os tribunais judiciais poderiam decidir.
A Companhia de Banhos de Vizela só viria a tomar conta dos Banhos do Paulino em 1921, comprando-os por 4.000$00, sendo as suas banheiras utilizadas na ala norte do balneário, cujas obras finalizaram em 1926.
As águas foram analisadas em 1913 por Charles Lepierre. Em 1929, o mesmo químico analisou as águas do Mourisco. Em 1944 e 1945, as águas das nascentes da Lameira 1 e 2, do rio, do Médico e do Mourisco foram analisadas por Herculano de Carvalho que concluiu: “O aspecto mais interessante da presente análise da água do «Médico» é o elevado teor de flúor que mostra. Esta particularidade era conhecida desde 1936, quando publiquei um trabalho sobre a determinação desse elemento nas nossas águas minerais. Mas, agora, confirma-se que o mesmo sucede com todas as nascentes de Vizela, como aliás era de prever”.
Quando da visita de Almeida e Almeida (1988) em 1979, é mencionada uma nova captagem por furo artesiano, o AC-2. Actualmente há mais três furos, o AC-3, GO/AP e GO-1, que captam as águas a uma profundidade entre 80 e 120 m, o que permite um caudal que orça actualmente em um milhão de litros por dia.
No início da década de 90 foi acrescentado ao balneário um centro de manutenção, com uma piscina de 25 metros com hidromassagem, ginásio, sauna, duche de jacto e de Vichy e hidromassagem computorizada, servindo assim a população local na vertente de “saúde e bem-estar”.
Em 1998 o velho sonho de formação do concelho de Vizela torna-se realidade. Desanexado de Guimarães, o novo concelho tem nas termas uma das suas apostas.

Mas onde está a Vizela romana que ainda em 1906 Tenreiro Sarzedas descreveu? No Museu da Sociedade Martins Sarmento em Guimarães e no Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa encontram-se várias lápides e outros objectos avulso procedentes de escavações em Vizela, mas os tanques, os mosaicos, as colunas, o resto de várias construções estão ainda no subsolo da cidade, nomeadamente sob a actual Praça da República onde recentemente foi “refeita” a Fonte de Água Quente, e ainda sob o terreiro do balneário e possivelmente no parque termal. Todos estes objectos poderão formar uma unidade museológica e cultural que conte a história muito antiga deste jovem concelho."

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De facto entender todos os pormenores que estão inerentes ao passado mas também ao presente, analisar as manifestações organizadas (vídeos), a reabertura, a associação de apoio criada, o acordo de accionistas e quem detém os títulos ao portador, as criticas às novas construções, mas também analisar a arte e os movimentos culturais, fazem deste espaço um mar de informações e um universo cheio de história para explorar e evidenciar. Como em cima foi citado, quer o Museu da Sociedade Martins Sarmento, quer o Museu Nacional de Arqueologia possuem património vizelense e naturalmente deverá ser recuperado pelos vizelenses. Quanto às Termas de Vizela que atualmente se encontra na gestão de um grupo espanhol continua a precisar de energia, de visão e de muitos apoios para tentar atingir a cota de mercado que no passado conseguiu obter.



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